quarta-feira, 23 de junho de 2010

Mesário é o Caralho!

A vice diretora de uma das escolas que eu trabalho ligou hoje para pedir meus dados para encaminhar para o TRE. Peraí!, eu falei, vai mandar meus dados para eu ser mesária? Não sei, mas tenho que mandar, foi a resposta.
Eu não dou nada para o Brasil. Principalmente enquanto o Brasil for governado pelo PT. O máximo de mim que dou ao país é minha torcida em dia de jogo da seleção brasileira e olhe lá. E meus impostos, que já são mais do que suficientes. Dar meu tempo não é um objetivo de vida. E por isso fiz uma coisa que já estava pensando em fazer mesmo. Preenchi a ficha de pré-inscrição no PSDB. Não gostou? Que se foda! Você que está lendo e os outros petistas filhos-da-puta. Que se fodam o Lula, a Dilma, e aquele povo imundo deles.
Este ano eu não queria saber de eleição. Este ano eu ia ficar quieta, e esperar o dia para ir lá votar no 45. E só. Mas me convocar é sacanagem. É guerra. Estão ferindo meus direitos constitucionais. Querem meu tempo, paguem por ele, ou me convençam, me seduzam. Não me convoquem. Eu sou muuiiito ciosa do meu tempo. Eu tenho filho pequeno e dia de eleição para mim, serve para eu exercer o meu direito de eleger meu representante. Vou por que quero e satisfeita, por que não tenho cabresto. Não preciso de bolsa escola, bolsa família, bolsa leite, bolsa gás ou qualquer esmola do tipo. Não preciso me vender, nem negociar minhas convicções. Não prostituo minha ideologia. Não preciso disso.
Mas QUEREM ME OBRIGAR A TRABALHAR? Por que? Por que eu sou funcionária pública, por que eu sou professora? Eu descobri que eles tem predileção pela categoria. É mais fácil de punir suspendendo sálario e essas coisas. Eles devem gostar de professores para ajudar os analfabetos a usarem a urna.
Meu Deus! Fico imaginado, minha pessoa sentada lá, enquanto chega gente falando que tem que votar no Lula, quer dizer na Dilma, aquela nulidade pernóstica, para não perder suas miserinhas...
Ok, Serra. Agora é sério. Faço campanha de graça e com gosto para você. Vamos tirar os incompetentes do poder! Chega dessa esquerda mesquinha e retrógada. Chega de amizade com ditadorzinhos de quinta categoria. O país precisa de mim? Quer os meus serviços? Que eu possa me orgulhar dele, pelo menos.
13 dá azar. 13 nunca mais!

domingo, 20 de junho de 2010

Fúria de Titãs

Ontem fui ao cinema. Seria absolutamente trivial se não fosse a segunda vez que vou em um ano e três meses. O último filme que vi foi "Avatar", há seis meses. Eu sei que tem gente que não liga. A menina que trabalha aqui em casa, por exemplo, o último filme que viu no cinema foi "Rambo III" (?), no tempo em que americanos e afegãos eram amigos, e não existiam talibãs, só guerra fria. Mas para mim que meu primeiro filme foi ET, é uma terrível agonia não ir ao cinema ver todas as estréias que eu tenho vontade. Mas é o que acontece com quem tem filho pequeno e não tem mãe...
Enfim, surge uma oportunidade, e com a criança devidamente encaminhada, com a avó e a tia, nós os pais, explorados, exaustos e até doentes, fugimos para uma abençoada sessão de cinema. Compramos os ingressos um dia antes. Eu não poderia correr o risco de não ter ingresso para mim. A única exigência era que fosse sessão legendada. Eu sou moça letrada e faço questão de ler os diálogos. E sou meio surda, nunca entendo a dublagem...
O filme já estava escolhido e não poderia ser outro. "Fúria de Titãs". Remake do clássico de 81, que marcou minha infância. Aqui em São Gonçalo, pelos idos dos anos 80, tinha uma única locadora, chamada Tela Mágica. Era no tempo que a gente escolhia o filme que ia ver em fichinhas datilografadas e os filmes levavam um hiato de anos entre o cinema e a locadora, os lançamentos da Tela Quente eram realmente quentes e o auge da tecnologia e da pirataria era ter dois videocassetes em casa e copiar VHS de um para o outro! Minha filha nunca vai saber o que é uma fita VHS, ou K-7, mas eu não esqueço. Papai saia todo sábado pela manhã comigo e alguns agregados nossos, eu não tinha irmão mas eles tinham adotado a criançada da vizinhança, e íamos na Tela Mágica escolher, geralmente por análise combinatória, sempre os mesmos filmes. Conan, o Bárbaro, A Casa do Espanto, Poltergeist, Krull e, claro "The Clash of Titans". Geralmente levávamos umas sete fitas por fim de semana. E por isso tinhamos que repetir os filmes. Chega a ser engraçado, mas fazia todo o sentido na época.
Eu não esperava nada do novo "Furia de Titãs". Quer dizer, eu sabia que Hollywood ia fazer lambança com o roteiro, e na verdade, o resultado é até melhor que o esperado. É obvio que a presença dos Djin, que fazem parte da mitologia persa, e do maluco que parece um faquir hindu é injustificável. A opção por não desenvolver um romance entre Perseu e Andrômeda é uma afronta. Achar que Zeus seria tolo a ponto de dar um mole daquele para Hades é um disparate. O sub aproveitamento dos deuses olímpicos é injustificável. E quem é Io, meu Deus?
Ok. O problema está todo aí, no subaproveitamento dos deuses. O filme é sobre homens em um tempo que está todo voltado para os homens. É um segundo Renascimento, e nesse momento em que vivemos o humanismo atinge o ápice, e abandonamos completamente o divino. E isso se espelha no novo Perseu, um self-made-man que despreza a divindade que há em si e a hierarquia.
Mitologia não é história. Mas foi com sir Laurence Olivier como Zeus que eu me iniciei com gosto nos mistérios de antigas civilizações. Pedi livros. Ganhei livros. Devorei livros. E aos 10 anos eu era "especialista" em Mitologia Grega e Grécia antiga. Período que nem me importo em estudar hoje em dia. Engraçado.
Mitologia não é história, mas os mitos, por vezes recorrentes, são coerentes com um determinado universo simbólico. Perseu, como Édipo e o próprio Zeus, é o filho , no caso neto, cuja existência ameaça a vida do seu genitor. Tudo sempre começa com uma profecia. Édipo é abandonado por que mataria seu pai, Laio, o que acaba acontecendo, de outra maneira. Cronos comia seus filhos pelo medo que tinha de que o depusessem, e apenas o pequeno Zeus é salvo por sua mãe, Réia, que dá ao marido uma pedra no lugar da criança, e ele com um apetite considerável não percebeu a diferença. Adulto, Zeus enfrenta e mata o pai, e de sua barriga retira seus irmãos vivos (afinal são deuses), e desse despedaçamento do genitor, nasce Afrodite, do encontro do sêmem de Cronos com a espuma do mar... Acrísio, rei de Argos tinha uma bela filha, que não poderia casar, pois a profecia dizia que o filho dela o mataria. Assim, trancou Danae numa alta torre e o desafio inflou o rei do Olimpo, e Zeus a possuiu sob a forma de uma chuva de ouro. Não sei como isso é possível, mas é lindo e poético. Acrísio tenta se livrar da filha e do neto, mas como ninguém mata a sangue frio a amante e o filho de um deus, são jogados no mar em um esquife. Há varias versões para os acontecimentos que seguem, mas Perseu é um homem com um destino. Ele mata a Medusa, uma das três Górgonas, e casa com Andromeda, e a história deles é conservada nas estrelas, sob forma de constelações.
Mas a gente hoje em dia não acredita mais em destino, nem em falta (a hybris dos gregos) e reparação. E o novo Perseu, lacônico, macho total, testosterona pura, desafia os deuses. Hérois gregos não desafiam deuses, a não ser quando devem ir ao Tártaro resgatar amados. Hérois gregos vivem em um universo em que algumas coisas são inevitáveis, a não ser que tenham muita coragem, sangue divino e ajuda dos Deuses. Em algumas versões, a bela Helena era filha de Zeus. Hercules era filho de Zeus. Aquiles, Jasão e Teseu também tinham divino parentesco.
Mas esse Perseu despreza os deuses e seus presentes (maravilhosos na versão de 81), e quer resolver tudo como homem. E Acrísio foi rebaixado a corno, bobo, enganado como Gorlois foi enganado por Merlin e Uther Pendragon em outra mitologia, para engendrar outro herói. Zeus era um camarada sofisticado. Cisne, boi, chuva de ouro, tudo valia para conquistar uma de suas belas helenas. Se disfarçar de marido... Bem ele o fez, mas o marido traído era Anfitrião e o rebento nascido foi Hércules.
Ah. O filme foi bom. Mas sinal dos nossos tempos, visualmente poderoso para ficar bem em 3D, com vistas aéreas tiradas de "O Senhor dos Anéis", e lutas inspiradas por "Matrix", com um sujeito duro de matar. Nada como o lúdico, simples, meio tosco (afinal era todo em stop motion) e fascinante filme de 81. E quando eu passar para os meus alunos, é o antigo que eu vou passar. Para aprenderem que, para além do magnifico Pégasus negro, o que conta realmente é uma boa história...

Bom jogo para todos!