Mega feriadao no Rio de Janeiro, e de forma um pouco ingenua, acreditamos que seria interessante comemorar nosso quinto aniversario de casamento em um destino turistico charmoso e bacana, e fazer alguma coisa diferente, mesmo levando o bebe e a sogra. Pensamos, pensamos e decidimos por Gramado, cidade com fama de romantica na serra Gaucha, da qual tinhamos boas referencias de amigos que ja tinham ido.
Entao vamos. Sempre pensamos que quando a pequena ficasse um pouquinho maior, nos deveriamos viajar sempre. A gente pensava em ser um desses casais aventureiros descolados que sobem o Himalaia com o bebe em um saco nas costas, como fazem os nativos tibetanos. Ate que a parte de viajar com o bebe deu certo, embora o pessoal que voltou no aviao com a gente nao deva ser da mesma opiniao(...), mas o destino, absolutamente nao era o Himalaia.
Antes mesmo de sair de casa, fiquei com a sensacao estranha de que havia algo errado. E que eu fui pesquisar a historia de Gramado e... nada! Quer dizer nao e como se a cidade nao tivesse historia. Tem. A regiao era um ponto de encontro de tropeiros, por volta de 1875, e a partir dai foi aos poucos sendo ocupada por leva de imigrantes. Mas so. Os imigrantes foram levando suas vidinhas calmas e esforcadas e estao la ate hoje. Nada de sangue, nada de paredes caindo de velhas, nada de historia acontecimental...
Enfim, chegamos la, em uma viagem tranquila. Tivemos problemas com a pousada em que nos colocaram, em meio de lugar algum a 4 Km do centro. Tive que admirar a persistencia do Andre, que nao sossegou enquanto nao nos mandaram para um lugar decente, no dia seguinte. Foi um pequeno percalco, desses que deixa a viagem divertida quando a gente conta. Tipo minha sogra pedir a moca da copa para fazer um suco para a crianca no cafe da manha e ela oferecer o liquidificador emprestado, por que fazer, nao fazia. Surreal.
A impressao de surrealismo foi aumentando ao longo dos dias. Talvez, ser turista seja aceitar o surrealismo, por que quem quer realidade, fica em casa. Mas sinceramente, ver aquele pessoal com todo tipo de sotaque, do pais inteiro, fantasiado como se estivesse em Aspen, foi um pouco estranho. As mulheres iam para as excursoes de botas de salto fino, sobretudo e muitos xales. Algumas colocavam meias de fio 80 e short curto e salto alto por cima. Gente, ninguem anda assim na rua! E os gramadenses, os poucos que vi, por que a cidade e dos turistas, os nativos devem se esconder em algum gueto, quando nao estao atendendo nas lojas, bares e hoteis, nao se vestem assim. Mesmo por que eles sentem muito menos frio que a gente.
E que frio! Cinco graus, para um carioca e um martirio. Mas obvio, que se eu quisesse calor, teria ido para o Nordeste (que e o que eu farei da proxima vez, se eu nao tiver desistido de viajar ate la...). Sexta feira, 23 de abril foi o dia mais frio e gelado da minha vida.
Em Gramado, tudo e sentou-sorriu-dividiu. Paga-se pelo menos dez reais em qualquer coisa que se tenha para ver, menos o Museu do Perfume. O pessoal garante o sustento! O teleferico, o Mini Mundo, o Mundo a Vapor, a fabulosa igreja neo-gotica de Canelas, as chocolaterias, o Museu Medieval com o maluco polones que merece uma cronica so dele, a vinicola Jolimont, que so vende no minimo seis garrafas de vinho... Foram bons momentos. O ponto alto sem duvida foi sabado a tarde quando nosso pequeno grupo, cansado e com fome ja estava se desentendendo. Casal, sogra e crianca em completa desarmonia, ate que paramos para ver o desfile dos colonos, descendente dos imigrantes originais, que se apresentavam em carrocas puxadas a boi, onde demonstravam suas atividades. Maria Luisa, que esta na fase dos bichinhos, vibrou com bois, porcos, galinhas, cavalos e tudo mais que veio. Muito bonita de gorrinho lilas, ja risonha, ganhou um saquinho de bolinho de chuva, e pao italiano quentinho saido do forno, das mocas que desfilavam. Matou a fome da familia toda e salvou o dia!
Nao achei as pessoas simpaticas. elas sao polidas, educadas. Mas nao sao simpaticas. Elas sabem que dependem do turista e o tratam bem. Simpaticos mesmo era a italianada do passeio que fizemos na zona rural. A senhora dona da fabrica de Mate se encantou por Maria Luisa, que por sua vez dancou muito forro-italiano com o pessoal da sanfona, em outra propriedade. A cidade em si, e muito bonita. E verde, com construcoes bonitas, ruas amplas, sem sinais, faixa de pedestre que fuciona, limpa, muito limpa. Mas fiquei com a impressao que ela faz um grande esforco para que gostem dela. Gramado-entidade quer muito, que seu turista a adore e idolatre, e eu sou refrataria a essas coisas. Ninguem me obriga a gostar de nada! Os restaurantes de aparencia chique e culinaria maravilhosa (come-se muito bem la, nao sei se e o frio, mas tudo tem gosto melhor), as lojas caras, as roupas deslumbrantes que vendem, sua populacao artificial, os cearenses de Aspen, os paulistas dos Alpes... Caramba! Imagino como deve ser em Bariloche!!!
E um faz-de-conta, como a Disney, imagino. A gente parcela a viagem em 10 x no cartao e passa cinco dias fazendo de conta que e rico. Que esta em Caras... A falta de patrimonio e historia afasta quem gosta de aprender e atrai quem gosta de consumir. Que saudades de Ouro Preto!
Ah! Nao sei se gostei de Gramado. Acho que nao vou saber nunca. Sera sempre uma incognita em minha vida. Um duelo entre o que vi e o que percebi. Mas como diriam os antepassados portugueses, "Navegar e preciso". Conhecer o mundo tambem. Nem que seja para falar mal dele depois!
Bjs!
(A falta de pontuacao dessa cronica e culta de um tal de teclado americano, do computador do Andre!)
terça-feira, 27 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
A semana que não exisitiu.
Dias estranhos. A semana começou com aquela chuva absurda que à primeira vista era só mais um temporal. Não era. Era a pior chuva dos últimos 44 anos, depois do verão mais quente dos últimos 12 anos. Os alarmistas apocalipticos e catastrofistas de plantão vêem aí o indício de que o tão desejado fim do mundo está chegando. 2012! Dizem alguns, impressionados pelo calendário Maia (e essa gente nem sabe quem foram os Maias) e pelo péssimo filme de mesmo nome. E ainda assim, 2012 chegará e passará como passou o ano 2000, o ano 1000, o ano 1033 e todas as outras predições de fim do mundo.
Se as catástrofes parecem piores ou maiores, não é só por conta do aquecimento global, mas por que nunca teve tanta gente antes vivendo ao mesmo tempo no mundo. E enquanto a gente assiste, bestificado, tanta tragédia, e enquanto a gente se questiona por que essas pessoas insistem em viver em áreas de risco, e enquanto a gente procura não desabar vendo os casos individuais, as perdas dos outros, pais, mães, irmãos, filhos, toda uma vida contada por seus objetos perdidos na enxurrada, enquanto a gente vê tudo isso, no fundo do peito, a descoberto, encontramos compaixão, solidariedade e alívio. Alívio de termos escapado. Alívio por nossos queridos estarem vivos e bem. Alívio pelo corpinho quente do bebê perto da gente. A gente sente alívio pela dor, que é dos outros, não é nossa. E depois a gente se envergonha do alívio.
Estou desde segunda feira sem sair de casa, praticamente. Como um caramujo, ou uma tartaruga. Fiquei 48 horas assistindo todos os angulos da tragédia na televisão, como uma cartase. Todo motivo é motivo para eu apertar minha menina e conferir se ela está bem. E ela está desde segunda feira se protegendo do friozinho com suas pantufas de coelhinho rosa no pé, que ela só tira depois de dormir, e procura logo que acorda. E a gente fica sem saber como continuar com a vida, que acabou para tanta gente, de uma só vez.
E dessa vez, é perto demais. Não é no Chile, no Haiti, em Santa Catarina ou no Piauí. É perto demais. E o absurdo de ter o poder público recomendando que todos ficassem em casa, a sensação de fim de mundo, um medo estranho que se insinua no pensamento da gente... E o maldito alívio.
O tempo não firma. Hoje me aventurei rapidamente na rua. Lama, areia e detritos na pista.
Voltei rápida para a pretensa segurança de casa. Vou ficar aqui até segunda feira que vem. Aí na terça, eu recomeço fazendo de conta que a semana que passou não existiu. Faço uma colagem no calendário e vida que segue no meu buraco de avestruz.
Se as catástrofes parecem piores ou maiores, não é só por conta do aquecimento global, mas por que nunca teve tanta gente antes vivendo ao mesmo tempo no mundo. E enquanto a gente assiste, bestificado, tanta tragédia, e enquanto a gente se questiona por que essas pessoas insistem em viver em áreas de risco, e enquanto a gente procura não desabar vendo os casos individuais, as perdas dos outros, pais, mães, irmãos, filhos, toda uma vida contada por seus objetos perdidos na enxurrada, enquanto a gente vê tudo isso, no fundo do peito, a descoberto, encontramos compaixão, solidariedade e alívio. Alívio de termos escapado. Alívio por nossos queridos estarem vivos e bem. Alívio pelo corpinho quente do bebê perto da gente. A gente sente alívio pela dor, que é dos outros, não é nossa. E depois a gente se envergonha do alívio.
Estou desde segunda feira sem sair de casa, praticamente. Como um caramujo, ou uma tartaruga. Fiquei 48 horas assistindo todos os angulos da tragédia na televisão, como uma cartase. Todo motivo é motivo para eu apertar minha menina e conferir se ela está bem. E ela está desde segunda feira se protegendo do friozinho com suas pantufas de coelhinho rosa no pé, que ela só tira depois de dormir, e procura logo que acorda. E a gente fica sem saber como continuar com a vida, que acabou para tanta gente, de uma só vez.
E dessa vez, é perto demais. Não é no Chile, no Haiti, em Santa Catarina ou no Piauí. É perto demais. E o absurdo de ter o poder público recomendando que todos ficassem em casa, a sensação de fim de mundo, um medo estranho que se insinua no pensamento da gente... E o maldito alívio.
O tempo não firma. Hoje me aventurei rapidamente na rua. Lama, areia e detritos na pista.
Voltei rápida para a pretensa segurança de casa. Vou ficar aqui até segunda feira que vem. Aí na terça, eu recomeço fazendo de conta que a semana que passou não existiu. Faço uma colagem no calendário e vida que segue no meu buraco de avestruz.
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