quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Reflexão para mais um Natal

É mais um Natal que chega. Mais um final de ano, um mês de dezembro, com gente enlouquecida nas ruas, atrás de presentes para a família, televisões de 32 polegadas, carros, viagens... Eu li em algum lugar que só de presentes equivocados são bilhões jogados no lixo todos os anos. Talvez fosse mais econômico se as pessoas trocassem vales-presente, por que aí ninguém iria errar. Não seria romântico, não seria pessoal, mas a satisfação estaria garantida, lá no final da troca... de qualquer modo nosso mundo hoje não é românticó, é impessoal, e o que interessa é a satisfação no final.
Eu estou chata para esse Natal. Chata e impaciente, tipo, não vejo a hora disso acabar.
De qualquer forma, 2009 não foi meu ano. Foi o ano da Maria Luísa. Foi o ano em que ela chegou e eu dediquei todo o meu tempo a cuidar dela, e vê-la se transformando de uma coisinha tão miudinha para uma bebezinha que já esbanja personalidade e vontade. É claro que em 2010 e em todos os anos que eu tiver para viver, ela sempre será minha prioridade. Mas eu sinto que preciso voltar para a existência no Mundo das Pessoas Grandes, saindo um pouco do Maravilhoso Mundo das Mães, em que o tempo é um calendário de vacinação e dentinhos que nascem são medalhas olímpicas...
Mas estou um pouco cansada, dessa agitação de Natal, que este ano começou cedo. Muita compra e pouca reflexão. Muito ter e pouco ser. Todo ano é a mesma coisa no final de ano: gente chorando por que o barraco desabou com a chuva e pessoas sorrindo felizes com suas sacolas no shopping. Prazer ilusório, que acaba quando chega a conta do cartão, em janeiro, junto com o IPVA e o IPTU... Parece que cada ano fica um pouco pior, que se perde um pouco mais de significado, que nos distanciamos mais dos valores como honestidade, gentileza e compaixão e os trocamos pelas coisas que podemos ter e mostrar para os outros.
Gosto de imaginar que na maioria, as pessoas são decentes, embora um pouco mesquinhas. Sempre concordei mais com Hobbes que com Rousseau, mas no ponto em que chegamos, não sei mais se a Sociedade como organismo vivo é o suficiente para disciplinar os abusos dos indivíduos. Mas a única regra dos nossos tempos é viver sem regras. Pensava-se que sem a repressão que as angustiava, as pessoas seriam felizes, se pudessem seguir suas próprias tendências e desejos. Não são. São neuróticas. Com regra ou sem regra, o ser humano sabe se fazer infeliz.
Por conta disso, preciso repensar algumas coisas, para poder ensinar à minha filha que, como disse o poeta, disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem. E que temos conviver pacificamente com as perdas, dores e frustrações da nossa condição humana. E que é o equilíbrio interno que nos dá clareza e discernimento para apreciarmos melhor nossas conquistas, valorizando-as pelo nosso esforço. E que não existe felizes para sempre, por que a felicidade deve ser construída todos os dias.
Feliz Natal.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A pequena crônica dos 30 anos.

Trinta anos amanhã. Trinta anos amanhã. Meu Deus! O que eu fiz com esses trinta anos? Foi só um ensaio? Posso pegá-los de volta para fazer sério desta vez? Posso pegá-los de volta para corrigir uns errinhos? Posso me divertir novamente, ou meu fim é realmente ficar sóbria no sofá com a criança no peito e o controle remoto na mão? Rápido demais. Rápido demais. Pára tudo que eu quero descer. Agora. Agora, não. Eu quero descer lá atrás, numa daquelas tardes de sol eternas. Eu quero descer lá atrás, numa daquelas noites estreladas sem fim, quando o riso corria fácil, frouxo, e era comum encontrar os amigos a qualquer hora do dia. Quando não existiam contas para pagar, lixo para tirar ou geladeira quebrada (de novo!). Pára tudo que eu não sei onde enfiei esses trinta anos e preciso achá-los. E eu perdi um monte de gente, que eu não sei onde está. E que eu nunca mais vi. E eu não conheço direito as pessoas novas que chegam. E esse mundo não é mais aquele em que eu cresci. E eu nem sempre sei o que estou fazendo aqui. Talvez precise de mais trinta anos para isso. E o tempo que a gente leva para saber as coisas, é sempre o tempo do tarde demais...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Vontade de escrever. Muita vontade. Ler e escrever são minhas formas preferidas de perceber o mundo e de deixar que o mundo me perceba. Ou me ignore, como queira. Mas muito antes dessa era de blogs, onde todos tem opniões relevantes, eu já escrevia nos meus cadernos solitários, onde umas poucas amigas liam e comentavam. Agora, até o alcance da irrelevância é bem maior...
A verdade é que eu quase não escrevo que é um pouco difícil fazê-lo com um bebê pendurado em um dos braços. Embora por conta disso eu acho que estou perdendo minha canhotice e estou me tornando progressivamente ambidestra... Eu sempre admirei as mães como se fossem uma mutação, um personagem de Heroes ou X-Men. Não conseguiu abrir a lata? Chama a mãe! Não sabe onde está a blusa vermelha? Chama a mãe! Não consegue alcançar o livro na prateleira mais em cima? Chama a mãe! Está chovendo? Chama a mãe! Não sabe o que fazer? Chama a mãe... Mães têm super força, telepatia, são elásticas, controlam o tempo e o espaço (embora às vezes não consigam controlar os próprios filhos). Mães são Onipresentes e Oniscientes. E tendo estado a vida inteira no lado de lá, no mundo cor de rosa das filhas que não sabem nada, eu sempre tive um enorme respeito pelas habilidades insuspeitas da criatura mitológica que me criou. Minha mãe era como Deméter para mim. Eu sabia que ela congelaria a terra e me buscaria no inferno se fosse preciso. E nunca imaginei que um dia seria como ela...
Mas eu tenho desenvolvido minhas próprias habilidades nos últimos meses... Escuto o choro da minha filha na minha cabeça, e acordo antes dela de fato chorar, tenho mais braços que o Octopus, alcanço coisas impossíveis de pegar, não tenho nojo de nada que seja dela. Nariz franzido em troca de fralda? Só se for de filho dos outros... Algumas habilidades incorporam na nossa personalidade. Outras só funcionam com o filho da gente. Mas não tem nada que se compare com o sorriso dela e a confiança que os olhinhos dela demonstram. Meu pequeno milagre é fabuloso. E eu digo para ela: qualquer problema, chama a mãe!

E com minhas novas habilidades mutantes, eu vou tentar escrever um pouco mais, nem que seja com a direita. E vou tentar variar de assunto embora ela seja meu assunto preferido...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"O Curioso Caso de Benjamim Button"



Ontem tive a oportunidade de ver o embriagador, segundo a opinião da Isabella Boscov, “O Curioso Caso de Benjamim Button”. Eu e a Isabella Boscov, embora ela não saiba, nos desentendemos várias vezes no ano passado, cada vez que ela escrevia uma crítica positiva sobre um filme que o resultado geral, em minha opinião era pífio, como o quarto “Indiana Jones”, “O Procurado” ou “Quantum of Solace”, entre outros. A minha crise de credulidade tem feito com que o cinema ultimamente não tenha sido uma opção de lazer para mim, por que eu simplesmente não consigo acreditar que alguém sobreviva a uma explosão nuclear dentro de uma geladeira, ou que balas façam curvas fora da “Matrix”. Obviamente, alguns de meus amigos comunistas, diriam que se eu parasse de ler a “Veja”, esse libelo de extrema direita, eu não entraria em contato com as opiniões vendidas da Boscov, essa capitalista desavergonhada prostituída pelos grandes estúdios. Mas deixar de ler a “Veja” não é uma opção. Prefiro deixar de comer carne, ou qualquer coisa do gênero...

 

Independente de qualquer coisa, a safra de 2008 foi horrível, de onde só se salvou o espertíssimo “A Culpa é do Fidel”, e o romance ultra teen de “Crepúsculo”. Mas essa é a minha singela e desimportante opinião. Só que desta vez eu sou obrigada a assinar embaixo do artigo da Boscov, e acho que “Benjamim Button” será facilmente o melhor filme do ano, que ainda está aos 20 dias do primeiro mês. Mas acho difícil que os próximos 345 dias restantes ofereçam um espetáculo cinematográfico de melhor qualidade.

 

A princípio, já é inacreditável que David Fincher, o mesmo diretor de um filme pop e violento como “Clube da Luta”, e de um sombrio como “Seven” tenha conseguido desenvolver o universo delicado de “Benjamim”, tornando uma fábula absolutamente crível, como muito filme que se leva a sério não consegue fazer. O filme começa no leito de morte de uma senhora, acompanhada pela filha, no momento em que o furacão Katrina chega a Nova Orleans. Ela pede à filha que leia um antigo diário, e através desta leitura acompanhamos a vida de Benjamim Button, que nascera em 1918, em “circunstâncias incomuns”: ele era um bebê velho, com todos os problemas e doenças da velhice. Abandonado pelo pai e criado num asilo por uma mãe adotiva ultra maternal, a deliciosa Quennie (que por algum motivo chegou a me lembrar da Mammy de Scarllet, em E o Vento Levou), o tempo para ele passa ao contrário, e ele rejuvenesce ao invés de envelhecer. Assim, com todos os ingredientes de uma boa história, nós vamos acompanhando sua vida e seu romance com Daisy, a amiga que conheceu quando era uma criança velha, e seu grande amor, no momento em que eles se encontram na metade do caminho, dele para a infância, e dela para a velhice.

 

É arrebatador. Talvez mais para mim, que não estava esperando grande coisa, e já tinha me convencido que a história era chata. Fui ao cinema, mais pela vontade do André do que da minha... E saí agradavelmente surpresa e profundamente emocionada.

 

O processo de rejuvenescimento de Benjamim faz com que ele, que começou a vida em uma cadeira de rodas, tenha prazer em todas as coisas que aos poucos vai se tornando capaz de fazer. Andar ereto, ouvir melhor, enxergar melhor, a elasticidade, força e habilidade da juventude, de tudo ele usufrui, e ao contrário de todos nós, que somos jovens antes de nos tornamos velhos, usufrui sem arrogância. Um jovem, um adolescente, geralmente esquece que o tempo passará para ele, assim como passou para seus pais e avós, e se acha tão distante da velhice, que se sente onipotente. E a onipotência da juventude, se carrega de equívocos, sendo o mais grave deles a impressão de que será eterna. Ainda mais nestes tempos de Botox, em que as pessoas preferem parecer os ETs sem expressão de “Vampiros de Almas” do que assumirem suas rugas como testemunha de um processo de amadurecimento. Mesmo por que não amadurecem.

 

Para concluir, eu me identifiquei com o filme pelas reflexões que levantou sobre meu relacionamento com a minha avó, que eu e meu irmão carinhosamente, sem que ela saiba, acabamos por apelidar de “Relíquia Macabra”. Minha avó, herança da minha mãe, é um desses casos curiosos na vida, de gente que envelhece sem jamais ter amadurecido. Teimosa, impulsiva, destemperada e egoísta, passou a vida cuidando dela, até o dia em que se “aposentou” e resolveu que nós tínhamos que cuidar dela, o que minha mãe fez quase abnegadamente, e eu faço com um tanto de má vontade, o que não é caridoso, e reconheço. Mas Benjamim me mostrou por que é mais fácil cuidar de uma criança do que de um idoso, mesmo essa criança sendo idosa como ele era. Por que a criança não sabe nada, e no fundo todos nós temos um certo prazer em ensinar a quem não sabe. Mas o idoso já soube, e por algum motivo parece ter esquecido, o bom senso, os argumentos, as possibilidades de debate, para se apegar apenas à teimosia e à vontade. É o que ele quer e é difícil convencê-lo do contrário. E a maioria, por já ter sido jovem, forte e capaz, e por não ter esquecido a arrogância e a “superioridade” da juventude, não se conforma com os novos limites do corpo, a perda gradativa do equilíbrio, da memória, da força, e torna a vida de quem cuida deles um dos círculos do inferno de Dante.

 

A delicadeza do filme me encantou, e “Benjamim Button” é filme de Oscar, a não ser que a Academia se decida por mais uma daquelas premiações políticas. Eu recomendo, e desafio a qualquer um a não sair da sessão com um nó na garganta, tentando engolir o choro que não combina com a dignidade dos adultos. Só combina com as crianças que fomos e os velhos que nos tornamos. Aposto que não vão conseguir.


OBS: Sem escapar aos assuntos óbvios do dia, boa sorte ao Obama, e Salve São Sebastião.