terça-feira, 9 de dezembro de 2008


Final de ano. Época de correr às lojas para comprar presentes, o que eu acho que com ou sem crise, todo mundo vai acabar fazendo. Época de ir a mil confraternizações, encontrar amigos e prometer vê-los mais vezes no ano que vem. Época de pensar na ceia de Natal e onde passar o Ano Novo. Época de ser mais amigável e sorrir para as pessoas na rua, apesar do calor. Época de dar provas e recuperação e fechar diários. Este último é o que eu tenho feito em meu encarne mais recente, como professora.

 

É claro que a realidade de que eu tenho mais uma semana de trabalho antes de um mês e meio de férias, sem ter que pedir nada a ninguém, é a realização das mais loucas fantasias que eu tinha há uns dois anos. Quando eu tinha que implorar para enforcar feriado, negociar, agradecer a Deus pelos meus vinte dias de férias (e quem, na iniciativa privada tem coragem de tirar trinta?), e ficar feliz da vida com a esmola de fim de ano que nos davam ao nos levarem ao Porção Rio’s, qualquer coisa tipo “Parabéns, Flipper!”, era como levar crianças carentes ao museu e achar que está fazendo o máximo de trabalho social...

 

Lembrando destes dias, e saboreando antecipadamente meus dias de férias e meus sete meses de licença no próximo ano, eu afirmo que me sinto muito feliz em corrigir provas e tirar as médias, coisa que faço com muito gosto, com todo o conforto, na sala da minha casa. A parte triste é você ter que lançar uma média dois no diário por que o seu sujeito da aprendizagem não conseguiu ou não quis assimilar mais do que o suficiente para tirar dois. E mais triste ainda, é ver a situação se repetir na recuperação.

 

Eu tenho lido vários artigos que colocam a culpa do fracasso escolar nos professores. Mas fico a perguntar, quais professores? Eu sou nesta área de atuação tão caxias quanto era em qualquer outra. Eu não falto, chego na hora, preparo as aulas que vou dar, estudo para dá-las, passo atividades complementares... enfim, faço o que julgo necessário e possível para proporcionar uma situação de aprendizado. Que culpa tenho eu se o educando, mal consegue entender o enunciado da questão para responde-la corretamente? Tenho turmas a partir do sexto ano, a antiga quinta série do ensino fundamental. Teoricamente falando, essas crianças estão aptas a ler e a entender o que lêem. Eu estava. Mas se elas não estão, eu não sei o que fazer, por que não tenho formação em educação infantil. Sou professora de História e consigo relacionar meu saber com outras áreas do conhecimento, embora não consiga liga-la à cartilha de alfabetização.

 

Acho que de certa forma, o ensino público se encontra como está por dois fatores distintos: primeiro os pais passam a responsabilidade para a escola, mas não passam mais a autoridade. O que significa que não há sanções ou penalidades para qualquer tipo de comportamento anti-social que seja apresentado. Segundo, o aprendizado em si, não é visto como um prêmio. Como objetivo principal. Prometa um celular com câmera e eles estudam. Prometa um MP4 e eles estudam. Mas estudar pelo conhecimento adquirido é perda de tempo para eles. Aparentemente, embora isso contrarie muito os colegas de esquerda, a sociedade de consumo e o capitalismo está profundamente arraigado na mentalidade dessas crianças. Essas crianças que primariamente pertencem às classes menos favorecidas, com quadros familiares complicados, não vêem no estudo uma forma de saírem de uma situação de impotência e privação. Mas cobiçam os bens de consumo que conseguiriam com um pouco mais de dinheiro.  

 

Olho para os meus alunos e prevejo o futuro deles muitas vezes. Percebo os mais ambiciosos, os mais capazes, talvez até mais orientados por suas famílias, se preparando para romper os grilhões da escola pública. Bolsas, cotas, cursos técnicos, eles se preparam para se inserirem no mercado competitivo, ainda que qualquer acontecimento possa, individualmente, mudar esse curso. Vejo também por outro lado, os que se contentarão em perpetuar as condições de vida de seus pais. Aqueles para os quais os filhos chegarão muito cedo, os empregos serão escassos por falta de especialização... Enfim, se meu exercício de futurologia parecer discriminatório e determinista, é só por que à medida que a gente fica mais velho, passa a perceber que as escolhas da vida são como equações matemáticas, e que determinada combinação entre elas, dará, invariavelmente um tal resultado. E é por isso que os pais da gente estavam sempre certos. Eles já conheciam as combinações.

 

De qualquer forma, sou partidária da consciência limpa, e faço o meu trabalho, da melhor forma possível. Se com meu conhecimento e meus conceitos eu puder ajudar no futuro deles, sinto-me imensamente satisfeita. Qualquer demonstração de interesse me deixa feliz. Por outro lado, a frustração de não alcança-los é grande. Mas, de qualquer forma é um emprego que eu gosto. Mesmo por que me permite usufruir de muitas horas para a minha própria existência. E isso já me consola...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Pais e Filhos



Einstein disse que o tempo é relativo.  Se o tempo que passou é muito ou pouco, depende da sua percepção, e sua percepção depende do que está acontecendo em sua vida.

De qualquer forma, de uns anos para cá eu tenho a impressão de entrar e sair de anos tão rapidamente, que por vezes eu nem sei o que aconteceu com eles. Quer dizer, saber, eu sei, por que eu me lembro dos acontecimentos, mas parece que a sucessão daqueles dias inócuos entre os que realmente importam é como uma nave na velocidade da luz, embora pareça, enquanto os vivemos que levam uma eternidade para passar.

É como eu me sinto agora, contemplando o distante fim de março, enquanto arrasto minha cria dentro de uma barriga que aos poucos se torna evidente. É uma espera sem fim. Acho que será mais fácil chegar o meu aniversário do ano que vem, do que o final de março. As pessoas, todas umas loucas, em minha opinião, as mulheres em geral, cantam odes às barrigas de grávida em verso e prosa, enquanto eu sigo achando todas elas ridículas. Acho que é gente muito carente, que aproveita qualquer oportunidade para serem o centro das atenções, montarem um circo e subirem no picadeiro. Eu não sou carente, isso eu sei a meu respeito.

Voltando à relatividade do tempo, por outro lado, um ano já passou voando por mim. Um ano desde a última vez em que vi minha mãe, escutei sua voz, recebi seu abraço. Um ano desde que as cargas pesadas que eram dela, caíram sobre minhas costas, me massacrando por vezes de solidão e responsabilidade. Solidão essa que é inexorável, pois, por mais que compartilhemos, somos todos solitários no momento de nascer, morrer, e no fado que nos é destinado entre esses dois extremos. Responsabilidade da qual não ousamos fugir, por que qualquer fuga nos cobraria o alto preço da consciência.

E assim, entre a mãe que já não existe, e a filha que ainda não nasceu, entre o abraço que recebi e o que ainda não senti, entre o tempo que voa e o que se arrasta, eu vou vivendo numa espécie de limbo. Esse limbo, no entanto, deu-me uma estranha visão da nossa humanidade, e de como todos nós somos resultado da nossa história. Eu sigo sendo eu mesma. E já não vejo mais minha mãe, ou meu pai. E agora que já não os vejo, que já não tenho diante dos olhos seus gestos, que já não ouço suas opiniões, que já não critico seus costumes, agora que eles não mais existem, eu os encontro, todos os dias, em mim.

 

Eu vejo no espelho as expressões deles no meu rosto. As ações deles nos meus gestos. As opiniões deles nas minhas palavras. Eu vejo que mais que uma individualidade, eu sou um produto. Eu sou o resultado de suas genéticas, de seus esforços e suas crenças. No limbo onde não sou mais filha e ainda não sou mãe eu os enxergo com clareza. Muito mais do que os que possuem os pais vivos até a velhice jamais os verão. Por que meus pais são o que foram, e não estão mais sujeitos a acontecimentos e mudanças. Por que se eles não estão mais neste plano, eu estou. E comigo, eles continuam, como continuarão através da neta deles.

A minha filha, que ainda não nasceu e que eu ainda não conheço, não terá como fugir do que nós somos. Eu não a conheço como conheci meus pais. Eu não sei do que ela vai gostar e do que não vai gostar de modo algum. Eu não como peixe. Talvez seja seu prato preferido. Eu não sei matemática. Talvez ela seja um gênio. Eu não vivo sem um livro. Pode ser que ela os rasgue. Eu não sei quem é essa minha filha. Não conheço sua expressão, seu choro ou seu sorriso. Não tenho a menor idéia qual será o seu temperamento. Ela é calma? Impetuosa? Terá uma boa estrela a guiá-la ou um futuro medíocre? Quem será essa menina? Terá os olhos do pai, a boca da mãe, o nariz da avó? Terá olhos, nariz e boca, todos dela, numa mistura que ninguém consegue definir o que puxou a quem? Eu sei que a minha filha vai ter nome de santo. O mais bonito.

 

Eu não conheço a minha filha. Mas ela vai ter longos anos para me conhecer. E depois que eu me for ela continua sendo eu. Como eu continuo sendo meus pais. E assim, não acabamos. E assim, nos perpetuamos. E assim, nada é em vão. E assim, entre Darwin, Freud e Deus, nós vivemos. Que bom que nós vivemos.