Einstein disse que o tempo é relativo. Se o tempo que passou é muito ou pouco, depende da sua percepção, e sua percepção depende do que está acontecendo em sua vida.
De qualquer forma, de uns anos para cá eu tenho a impressão de entrar e sair de anos tão rapidamente, que por vezes eu nem sei o que aconteceu com eles. Quer dizer, saber, eu sei, por que eu me lembro dos acontecimentos, mas parece que a sucessão daqueles dias inócuos entre os que realmente importam é como uma nave na velocidade da luz, embora pareça, enquanto os vivemos que levam uma eternidade para passar.
É como eu me sinto agora, contemplando o distante fim de março, enquanto arrasto minha cria dentro de uma barriga que aos poucos se torna evidente. É uma espera sem fim. Acho que será mais fácil chegar o meu aniversário do ano que vem, do que o final de março. As pessoas, todas umas loucas, em minha opinião, as mulheres em geral, cantam odes às barrigas de grávida em verso e prosa, enquanto eu sigo achando todas elas ridículas. Acho que é gente muito carente, que aproveita qualquer oportunidade para serem o centro das atenções, montarem um circo e subirem no picadeiro. Eu não sou carente, isso eu sei a meu respeito.
Voltando à relatividade do tempo, por outro lado, um ano já passou voando por mim. Um ano desde a última vez em que vi minha mãe, escutei sua voz, recebi seu abraço. Um ano desde que as cargas pesadas que eram dela, caíram sobre minhas costas, me massacrando por vezes de solidão e responsabilidade. Solidão essa que é inexorável, pois, por mais que compartilhemos, somos todos solitários no momento de nascer, morrer, e no fado que nos é destinado entre esses dois extremos. Responsabilidade da qual não ousamos fugir, por que qualquer fuga nos cobraria o alto preço da consciência.
E assim, entre a mãe que já não existe, e a filha que ainda não nasceu, entre o abraço que recebi e o que ainda não senti, entre o tempo que voa e o que se arrasta, eu vou vivendo numa espécie de limbo. Esse limbo, no entanto, deu-me uma estranha visão da nossa humanidade, e de como todos nós somos resultado da nossa história. Eu sigo sendo eu mesma. E já não vejo mais minha mãe, ou meu pai. E agora que já não os vejo, que já não tenho diante dos olhos seus gestos, que já não ouço suas opiniões, que já não critico seus costumes, agora que eles não mais existem, eu os encontro, todos os dias, em mim.
Eu vejo no espelho as expressões deles no meu rosto. As ações deles nos meus gestos. As opiniões deles nas minhas palavras. Eu vejo que mais que uma individualidade, eu sou um produto. Eu sou o resultado de suas genéticas, de seus esforços e suas crenças. No limbo onde não sou mais filha e ainda não sou mãe eu os enxergo com clareza. Muito mais do que os que possuem os pais vivos até a velhice jamais os verão. Por que meus pais são o que foram, e não estão mais sujeitos a acontecimentos e mudanças. Por que se eles não estão mais neste plano, eu estou. E comigo, eles continuam, como continuarão através da neta deles.
A minha filha, que ainda não nasceu e que eu ainda não conheço, não terá como fugir do que nós somos. Eu não a conheço como conheci meus pais. Eu não sei do que ela vai gostar e do que não vai gostar de modo algum. Eu não como peixe. Talvez seja seu prato preferido. Eu não sei matemática. Talvez ela seja um gênio. Eu não vivo sem um livro. Pode ser que ela os rasgue. Eu não sei quem é essa minha filha. Não conheço sua expressão, seu choro ou seu sorriso. Não tenho a menor idéia qual será o seu temperamento. Ela é calma? Impetuosa? Terá uma boa estrela a guiá-la ou um futuro medíocre? Quem será essa menina? Terá os olhos do pai, a boca da mãe, o nariz da avó? Terá olhos, nariz e boca, todos dela, numa mistura que ninguém consegue definir o que puxou a quem? Eu sei que a minha filha vai ter nome de santo. O mais bonito.
Eu não conheço a minha filha. Mas ela vai ter longos anos para me conhecer. E depois que eu me for ela continua sendo eu. Como eu continuo sendo meus pais. E assim, não acabamos. E assim, nos perpetuamos. E assim, nada é

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