Dias estranhos. A semana começou com aquela chuva absurda que à primeira vista era só mais um temporal. Não era. Era a pior chuva dos últimos 44 anos, depois do verão mais quente dos últimos 12 anos. Os alarmistas apocalipticos e catastrofistas de plantão vêem aí o indício de que o tão desejado fim do mundo está chegando. 2012! Dizem alguns, impressionados pelo calendário Maia (e essa gente nem sabe quem foram os Maias) e pelo péssimo filme de mesmo nome. E ainda assim, 2012 chegará e passará como passou o ano 2000, o ano 1000, o ano 1033 e todas as outras predições de fim do mundo.
Se as catástrofes parecem piores ou maiores, não é só por conta do aquecimento global, mas por que nunca teve tanta gente antes vivendo ao mesmo tempo no mundo. E enquanto a gente assiste, bestificado, tanta tragédia, e enquanto a gente se questiona por que essas pessoas insistem em viver em áreas de risco, e enquanto a gente procura não desabar vendo os casos individuais, as perdas dos outros, pais, mães, irmãos, filhos, toda uma vida contada por seus objetos perdidos na enxurrada, enquanto a gente vê tudo isso, no fundo do peito, a descoberto, encontramos compaixão, solidariedade e alívio. Alívio de termos escapado. Alívio por nossos queridos estarem vivos e bem. Alívio pelo corpinho quente do bebê perto da gente. A gente sente alívio pela dor, que é dos outros, não é nossa. E depois a gente se envergonha do alívio.
Estou desde segunda feira sem sair de casa, praticamente. Como um caramujo, ou uma tartaruga. Fiquei 48 horas assistindo todos os angulos da tragédia na televisão, como uma cartase. Todo motivo é motivo para eu apertar minha menina e conferir se ela está bem. E ela está desde segunda feira se protegendo do friozinho com suas pantufas de coelhinho rosa no pé, que ela só tira depois de dormir, e procura logo que acorda. E a gente fica sem saber como continuar com a vida, que acabou para tanta gente, de uma só vez.
E dessa vez, é perto demais. Não é no Chile, no Haiti, em Santa Catarina ou no Piauí. É perto demais. E o absurdo de ter o poder público recomendando que todos ficassem em casa, a sensação de fim de mundo, um medo estranho que se insinua no pensamento da gente... E o maldito alívio.
O tempo não firma. Hoje me aventurei rapidamente na rua. Lama, areia e detritos na pista.
Voltei rápida para a pretensa segurança de casa. Vou ficar aqui até segunda feira que vem. Aí na terça, eu recomeço fazendo de conta que a semana que passou não existiu. Faço uma colagem no calendário e vida que segue no meu buraco de avestruz.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário